Eu queria ser uma mosquinha

Uma sensibilização sobre a construção da cultura de paz e combate às violências no ambiente escolar.

Helena Feitoza Maciel

6/25/20264 min read

— Você lembra do seu primeiro dia na escola, mãe?

Assim começou a conversa na sala de espera do sono, aquele momento silencioso antes de dormir, com as luzes apagadas, quando alguém deixa transbordar uma conversa sobre algo que está fervilhando dentro da própria cabeça.

A mãe tentou recordar o seu primeiro dia. A memória distante já havia apagado muitos detalhes, mas lembrava que não tinha sido tão fácil assim. Pensou por um instante e concluiu que não era o melhor momento para falar das dificuldades que passou, então respondeu:

— Foi o melhor possível, meu filho. Tenho certeza de que o seu primeiro dia será melhor ainda.

As férias haviam acabado e finalmente se aproximava o primeiro dia de aula na nova escola.

Fred estava animado, mas também um pouco nervoso. Sua mãe percebeu.

— Está tudo bem, filho? Você está preocupado? — perguntou.

— Acho que estou com medo — respondeu, encolhendo o corpo na cama.

— Ah, filho! Você vai gostar da nova escola. Tenho certeza de que esse medo vai passar e você vai se divertir muito. Aliás… eu queria ser uma mosquinha para poder entrar na escola e te bizoiar.

Mãe e filho deram risada juntos, imaginando a cena. O menino logo respondeu:

— Se você fosse uma mosquinha na escola, eu ia colocar você na minha mão e dar um beijinho.

— Eca!!! — respondeu a mãe, em meio a mais risadas.

— Boa noite, filho. Agora vamos dormir, porque amanhã será um grande dia. Fred dormiu.

Agora era a cabeça da mãe que não parava de ferver. O que será que acontece lá dentro da escola quando eu não estou por perto?

O despertador tocou logo cedo e começou a correria para que tudo desse certo no primeiro dia. No portão da escola, mãe e filho se despediram com muito carinho. Fred deu um beijinho demorado no rosto da mãe, virou as costas e seguiu pelo corredor. Depois de alguns passos, olhou para trás para dar mais um tchauzinho, mas a mãe não estava lá. Ele pensou:

— Nossa… minha mãe devia estar com muita pressa para ter ido embora correndo desse jeito.

Um pouco frustrado, seguiu seu caminho rumo ao primeiro dia.

A verdade é que algo muito estranho havia acontecido. Depois daquele beijinho do filho, a mãe

rapidamente ficou diferente. Muito menor, muito leve e tinha asas.

— Eu virei… uma mosquinha?!

Assustada, começou a se familiarizar com sua nova capacidade de voar.

— Socorro… o que eu faço agora? Vou para casa esperar essa estranheza passar ou entro na

escola junto com o Fred?

Ela pensou por um instante.

— Não… se eu entrar junto, que tipo de mãe eu seria? Aquela que não deixa o filho enfrentar

sozinho os desafios da vida?

Fez uma pausa.

— Mas… bem que eu queria ver… só um pouquinho…

E decidiu:

— Vou voar devagar pra ninguém me perceber.

Lá dentro, ela começou a observar. Viu crianças correndo no pátio, professoras organizando materiais. Viu seu filho tentando aprender o nome dos novos colegas. Às vezes ele parecia feliz, outras vezes parecia um pouco perdido.

A mãe-mosquinha ficou com o coração apertado, mas também aliviado. Ela sabia que crescer também dói um pouco, está tudo bem. Nos dias seguintes, a estranheza continuou. A mãe virava mosquinha sempre depois do beijinho de despedida na entrada da escola e voltava a ser mãe quando o sinal tocava para ir embora. Assim ela continuou observando.

Um dia viu Fred errar uma palavra ao ler em voz alta. Alguns colegas riram, mas outro menino disse:

— Não tem problema. Eu também erro.

A mãe-mosquinha sorriu. Mas nem tudo era tão bonito, um dia ela viu uma menina sendo chamada por apelidos e chorar por isso. Outro dia viu uma professora tão cansada que acabou gritando. Em outra sala, viu uma senhora que limpava o pátio com tanto capricho sendo tratada com desprezo. Também viu espaços com coisas quebradas e materiais faltando, como se aquilo que deveria ter sido cuidado tivesse sido esquecido pelo caminho.

A mãe-mosquinha começou a perceber algo importante. Dentro da escola existem dois tipos de dor, uma dor faz parte da vida: aprender, errar, sentir saudade, fazer novos amigos. São desafios que podem gerar desconfortos. A outra dor é diferente. É a dor causada pela violência e pelo desrespeito, essa dor não precisava existir.

Durante alguns dias, a mosquinha ficou pensando sobre o que uma mosquinha poderia fazer, mesmo sendo tão pequena. Foi então que teve uma ideia, começou a chamar outras mosquinhas que voavam pela escola.

— Ei! Vocês também estão vendo o que acontece por aqui?

— Sim… nós vemos — responderam algumas.

— Então vamos observar juntas.

Assim nasceu o pequeno Movimento das Mosquinhas da Escola. Elas decidiram prestar atenção em tudo. Quando viam algo bonito, comemoravam. Quando encontravam injustiça, humilhação ou desrespeito, não deixavam aquilo escondido. Faziam como quando esquecemos de recolher alguma sujeira no quintal ou na cozinha: se aproximavam da questão e zumbiam sem parar. Chamavam atenção e mostravam que aquilo precisava mudar.

Pouco a pouco, as pessoas começaram a perceber. Algumas crianças passaram a defender colegas, outras já não viam mais graça em se divertir com a dor do outro. Os adultos começaram a conversar mais e buscar soluções juntos, sem brigar. A escola começou, devagar, a melhorar.

Um dia, depois de um beijo de despedida bem confiante e uma caminhada firme do filho em direção à escola, sem olhar pra trás, algo diferente aconteceu. A mãe continuou sendo mãe. Ali, do lado de fora da escola e seguiu seu caminho.

Naquela noite, na sala de espera do sono, Fred contou:

— Mãe! Hoje uma amiga nova brincou comigo no recreio.

Ela sorriu.

— Que bom, filho.

Fred pensou um pouco e completou:

— Mas sabe que lá na escola tem uma coisa estranha?

— O quê? — perguntou a mãe.

— Às vezes parece que tem várias mosquinhas na escola.

—Mosquinhas? Eca, que coisa mais estranha! Respondeu a mãe, fazendo uma careta engraçada.

— É, mas elas não aprecem o tempo todo, só quando alguém faz alguma coisa que machuca os outros, como tirar sarro de um colega ou desrespeitar, é como se sempre tivesse alguém olhando.

A mãe fez carinho na cabeça do filho e pensou:

— As mosquinhas já estão por aí, em cada pessoa que não finge que não viu, elas só precisam de mais mosquinhas para fortalecer o seu zumbido.

Escola é lugar de aprender e a maior lição de todas é cuidar uns dos outros.
Você também pode ser uma mosquinha.